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Domingo XX do Tempo Comum - Ano A - 16 de agosto

SOMOS CHAMADOS À VIVÊNCIA DA FÉ 

O texto do evangelho deste domingo provoca uma certa estranheza. Para nós, é difícil compreender uma atitude tão dura de Jesus para com uma mulher pagã. Tem, como fundamento, uma questão delicada e séria: a postura de Jesus e da primeira comunidade cristã para com os pagãos. A primeira leitura deste domingo pode ajudar-nos. O povo de Israel recebe a Palavra e os dons de Deus no seu templo. Mas os profetas já tinham afirmado: não basta pertencer a um povo oficializado como Povo de Deus. É necessário que os seus membros vivam fiéis à Palavra de Deus e ao culto que celebram. E a primeira leitura deste domingo dá ainda mais um passo em frente, valorizando a vida daqueles que não pertencem ao Povo de Deus. Se a sua conduta for justa, eles podem entrar no templo e participar no culto. Este foi o passo decisivo. Todos os povos e todas as pessoas são chamadas à experiência interior da fé. É isto que o texto evangélico quer salientar. Depois de um percurso doloroso e admirável daquela mulher, surge a expressão de Jesus, que é o centro do texto deste domingo: “Mulher, é grande a tua fé”. Várias vezes, o Evangelho destaca reações semelhantes de Jesus: a que foi dirigida à mulher cananeia é, provavelmente, o exemplo mais forte disso. No diálogo com o centurião, “Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé”! (Mt 8, 10); porém, em Nazaré, “não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente”. Não é difícil encontrar este aspeto na parábola do Bom Samaritano: passam os membros do Povo de Deus que trabalhavam no templo; o único que tem compaixão é o pagão (Lc 10, 25-37). Depois de ressuscitar, Jesus diz: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). A primeira comunidade cristã fez, pouco a pouco, este processo de integração, o que não foi fácil. É o caminho para valorizar cada pessoa, a sua fé, o seu amor, para além das instituições e das ordens externas. O Apocalipse faz referência a esta integração, utilizando a seguinte expressão: “homens de todas as tribos, línguas, povos e nações” (Ap 5, 9; 7, 9; 11, 9; 13, 7). E nós? Estamos habituados a falar de culturas. Pensamos na nossa, que nos envolve na forma como pensamos e procedemos na vida. Há uma forte tensão entre a clareza de cada cultura e a postura individual, a fé e o amor, de cada pessoa e de cada grupo dentro das culturas. O apóstolo Paulo elaborou uma ideia surpreendente que lemos na segunda leitura deste domingo. Deus permitiu a decadência das culturas, judaicas e pagãs, para se compadecer de todos e, assim, conduzir o maior número possível de pessoas a uma vida nova e salva. Também nós somos chamados a viver de acordo com o Evangelho e a salvar a nossa cultura com a luz do Evangelho. O encontro de Jesus com a mulher cananeia faz parte deste processo de abertura da mensagem salvífica a toda a humanidade. Todos são chamados por Deus à vida de esperança e de amor. Cada um terá de responder através das suas palavras e das suas obras para, depois, participar na Páscoa de Jesus. O Concílio Vaticano II abordou o tema com uma visão radical e relembrou uma visão teológica enraizada no mistério de Cristo, Salvador de toda a humanidade. “Com efeito, já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido”(GS 22).

SUGESTÃO DE CÂNTICOS

Entrada: Deus vive na sua morada santa, NCT 217, Povo de Reis, NCT 226, Caminhamos na Alegria, NCT 734; Nós somos o Povo do Senhor (J. Martins) – NCT 222, Senhor, que nos dais guarida (F. Silva) – CEC II 100; Apresentação dos Dons: Na hóstia sobre a patena (C. Silva) – NCT 248; Tomai e recebei (H. Faria) – CT 88 / (F. Silva) – IC 362; Comunhão: Eu sou o pão vivo, NCT 263, Formamos um só corpo NCT 265; Tudo o que pedirdes na oração (C. Silva) – CEC II 52; Saboreai como é bom (A. Cartageno) – CEC II 173; Final: Em Vós, Senhor (M. Silva) – CT 309; Bendito seja Deus (M. Luís) – NCT 175.

LEITURA ESPIRITUAL

«Mulher, grande é a tua fé!» 

«Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim!» É um apelo de uma força imensa. É um gemido que vem como que de uma profundeza sem fim. Ele ultrapassa em muito a natureza e é o próprio Espírito Santo que deve proferir em nós esse gemido (Rm 8,26). Mas Jesus diz-lhe: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Ora, que faz ela assim aflita? Penetra ainda mais profundamente no abismo. Prostrando-se e humilhando-se, mantém a confiança e diz: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos.» Ah! Se também pudésseis penetrar assim tão verdadeiramente no fundo da verdade, não através de comentários sábios, palavras complexas ou mesmo dos sentidos, mas no fundo de vós mesmos! Nem Deus nem qualquer criatura conseguiria desprezar-vos, aniquilar-vos, se permanecêsseis na verdade, na humildade confiante. Poderiam sujeitar-vos a afrontas, ao desprezo e a recusas grosseiras, que vós iríeis perseverar, iríeis insistir, animados por uma total confiança, e iríeis aumentar sempre o vosso zelo. É disto que tudo depende, e aquele que chega a este ponto é bem-sucedido. Apenas estes caminhos conduzem, na verdade e sem qualquer estação intermédia, a Deus. Mas permanecer assim nesta grande humildade, com perseverança, com uma segurança total e verdadeira como esta pobre mulher o fez, são poucos os que conseguem. (Comentário ao Evangelho do dia feito por Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano, Sermão 9, a partir da trad. Cerf 1979, t. 1, p. 36)

 

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Redação: Padre Jorge Seixas e Padre Carlos Cunha

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