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Domingo XXIV do Tempo Comum - Ano A - 13 de setembro

O PERDÃO É UM CAMINHO DE CONSTRUÇÃO DE PONTES 

Neste domingo, as leituras da Palavra de Deus tratam de um tema importante e delicado: o conflito e a forma de o enfrentar na vida. O evangelho fala-nos do “perdão”, através de uma parábola. É importante aprofundar o significado do perdão evangélico, devido a pouca ou nenhuma influência que a mensagem do perdão evangélico tem na atualidade. Uma das perguntas básicas sobre o assunto é a raiz da mensagem sobre o perdão. Com que base Jesus sublinha a sua importância? Lembremo-nos da reação de Jesus à pergunta de Pedro: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, ou seja, deve perdoar sempre e, depois, conta a parábola do rei bondoso, símbolo do Deus que perdoa. Jesus fundamenta-se no mistério de Deus, Jesus fala de Deus. E não no que Deus ordena, proíbe, recompensa ou condena, mas no que Deus é e faz: Deus ama e perdoa. Esta linguagem é determinante. Jesus fala da sua experiência de Deus como Filho. Deus perdoa esta humanidade conflituosa. Aquilo que deve marcar a vida humana à luz de Deus é o amor que perdoa, perante a nossa experiência de conflitos. Mas, há outro aspeto importante a considerar: o apelo de Jesus à humanidade para que se sinta pecadora e perdoada: “lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama (Lc 7, 36ss), o que disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2, 1ss); e, sobretudo, a frase de Jesus diante da mulher adúltera: “quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra (Jo 8, 1ss). A melhor atitude diante do pecado dos outros é reconhecer o próprio pecado. Este é provavelmente um dos pontos mais delicados da mensagem evangélica e que suscita mais relutância. Falar do pecado do mundo e dos outros implica reconhecer as fraquezas da própria vida, a mesquinhez do nosso amor, a necessidade de se reconhecer pecador. No centro do amor salvífico de Deus está o perdão incondicional do Pai. Somos pecadores e perdoados. O facto de sabermos que somos perdoados leva-nos a entrar na intimidade da nossa consciência e a reconhecer o nosso pecado sem a necessidade de o negar para vivermos em paz. Aqueles que não reconhecem o perdão de Deus não podem suportar o seu próprio pecado e correm o risco de negá-lo. Por outro lado, aqueles que experimentam a profundidade das palavras do Evangelho, “filho, os teus pecados estão perdoados” e “a tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7, 50), podem reconhecer o próprio pecado e estarem ao lado dos irmãos, que são também pecadores e perdoados. Mas, há aqui uma outra questão importante: na verdade, o que significa perdoar, o que implica perdoar? Perdoar não é desejar o mal àqueles que nos ofenderam, rejeitar sentimentos de vingança ou de ressentimento, evitar alegrar-se com os seus infortúnios. É viver uma relação com o que nos ofende idêntica à relação com os outros. Por vezes, ouve-se dizer: “não consigo esquecer nem perdoar”. Esta expressão acentua outro aspeto do tema do perdão que vale a pena aprofundar: a reconciliação. Conflitos e ofensas não costumam ser eventos pontuais e isolados, mas provêm de confrontos anteriores. Perdoar é iniciar um novo caminho, o da reconciliação entre pessoas, entre grupos, entre países. Devemos entender o perdão como um caminho, uma nova situação entre as pessoas e os povos, marcada pelo esforço de construir pontes de diálogo para a justiça e a paz. Não se pode pedir perdão a Deus se não perdoarmos. Temos dificuldade em perdoar. Há mesmo pessoas que são incapazes de perdoar a si mesmos os pecados e erros cometidos no passado e que continuam a atormentá-los. Porque humanamente, o perdão é algo muito difícil, quase impossível. Mas não podemos ficar no sentimento “não consigo perdoar, porque não consigo esquecer”. O esquecimento é função da memória, enquanto o perdão está no coração. E Jesus pede-nos que perdoemos. Se nos esforçamos por perdoar, a ofensa acaba aliviando a sua memória. Mas se estou constantemente a lembrar-me da ofensa, será quase impossível perdoar. Para o cristão, perdoar não é uma opção, é uma necessidade, porque Deus só nos perdoa com a medida que perdoarmos àqueles que nos ofendem. Perdoar sete vezes é perdoar sempre. Perdoar setenta vezes sete é perdoar de uma forma ilimitada.

SUGESTÃO DE CÂNTICOS

Entrada: Dai a paz, Senhor, M. Faria, NCT 214; Povo resgatado, F. Silva, NCT 227; Escutai, Senhor, a prece (A. Cartageno) – CEC II 113; Apresentação dos Dons: Vós, Senhor, sois o nosso Pai (C. Silva) – OC 317; Se morremos com Cristo (M. Luís) – CAC 294; Comunhão: O cálice da bênção, F. Silva, NCT 131; Se vos amardes (F. Silva) – NCT 274; Como é admirável, Senhor (F. Santos) – CEC II 11; Final: Recebemos do Senhor (M. Luís) – CAC 231; Exulta de alegria (M. Carneiro) – NCT 740.

LEITURA ESPIRITUAL

«Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?» 

Se coexistem na mesma alma, por um lado a compaixão e por outro o juízo de simples equidade são como um homem que adora Deus e os ídolos na mesma casa. A compaixão é o contrário do juízo de simples justiça. O juízo estritamente equitativo implica a igual repartição por todos de uma medida semelhante: dá a cada um o que ele merece, não mais; não se inclina para um lado nem para o outro, não discerne na retribuição. Pelo contrário, a compaixão é suscitada pela graça, inclina-se sobre todos com a mesma afeição, evita a simples retribuição àqueles que são dignos de castigo e cumula para lá de qualquer medida os que são dignos do bem. A compaixão está, pois, do lado da justiça, enquanto o juízo apenas equitativo está do lado do mal. Assim como um grão de areia não pesa tanto como muito ouro, assim também a justiça equitativa de Deus não pesa tanto como a sua compaixão. Qual punhado de areia caindo no vasto oceano, assim são as faltas das criaturas em comparação com a providência e a piedade de Deus. E, da mesma forma que uma nascente que jorra com abundância não pode ser bloqueada por um punhado de terra, tão-pouco a compaixão do Criador pode ser vencida pela malícia das criaturas. Quem guarda ressentimento quando reza é como um homem que semeia no mar e espera colher do que semeou. (Isaac o Sírio (século VII), monge perto de Mossul, Discursos espirituais, 1ª série, nº 58)

 

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Redação: Padre Jorge Seixas e Padre Carlos Cunha

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