O PERDÃO É UM CAMINHO DE CONSTRUÇÃO DE PONTES
Neste domingo, as leituras da Palavra de Deus tratam de um tema importante e delicado: o conflito e a forma de o enfrentar na vida. O evangelho fala-nos do “perdão”, através de uma parábola. É importante aprofundar o significado do perdão evangélico, devido a pouca ou nenhuma influência que a mensagem do perdão evangélico tem na atualidade. Uma das perguntas básicas sobre o assunto é a raiz da mensagem sobre o perdão. Com que base Jesus sublinha a sua importância? Lembremo-nos da reação de Jesus à pergunta de Pedro: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, ou seja, deve perdoar sempre e, depois, conta a parábola do rei bondoso, símbolo do Deus que perdoa. Jesus fundamenta-se no mistério de Deus, Jesus fala de Deus. E não no que Deus ordena, proíbe, recompensa ou condena, mas no que Deus é e faz: Deus ama e perdoa. Esta linguagem é determinante. Jesus fala da sua experiência de Deus como Filho. Deus perdoa esta humanidade conflituosa. Aquilo que deve marcar a vida humana à luz de Deus é o amor que perdoa, perante a nossa experiência de conflitos. Mas, há outro aspeto importante a considerar: o apelo de Jesus à humanidade para que se sinta pecadora e perdoada: “lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama (Lc 7, 36ss), o que disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2, 1ss); e, sobretudo, a frase de Jesus diante da mulher adúltera: “quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra (Jo 8, 1ss). A melhor atitude diante do pecado dos outros é reconhecer o próprio pecado. Este é provavelmente um dos pontos mais delicados da mensagem evangélica e que suscita mais relutância. Falar do pecado do mundo e dos outros implica reconhecer as fraquezas da própria vida, a mesquinhez do nosso amor, a necessidade de se reconhecer pecador. No centro do amor salvífico de Deus está o perdão incondicional do Pai. Somos pecadores e perdoados. O facto de sabermos que somos perdoados leva-nos a entrar na intimidade da nossa consciência e a reconhecer o nosso pecado sem a necessidade de o negar para vivermos em paz. Aqueles que não reconhecem o perdão de Deus não podem suportar o seu próprio pecado e correm o risco de negá-lo. Por outro lado, aqueles que experimentam a profundidade das palavras do Evangelho, “filho, os teus pecados estão perdoados” e “a tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7, 50), podem reconhecer o próprio pecado e estarem ao lado dos irmãos, que são também pecadores e perdoados. Mas, há aqui uma outra questão importante: na verdade, o que significa perdoar, o que implica perdoar? Perdoar não é desejar o mal àqueles que nos ofenderam, rejeitar sentimentos de vingança ou de ressentimento, evitar alegrar-se com os seus infortúnios. É viver uma relação com o que nos ofende idêntica à relação com os outros. Por vezes, ouve-se dizer: “não consigo esquecer nem perdoar”. Esta expressão acentua outro aspeto do tema do perdão que vale a pena aprofundar: a reconciliação. Conflitos e ofensas não costumam ser eventos pontuais e isolados, mas provêm de confrontos anteriores. Perdoar é iniciar um novo caminho, o da reconciliação entre pessoas, entre grupos, entre países. Devemos entender o perdão como um caminho, uma nova situação entre as pessoas e os povos, marcada pelo esforço de construir pontes de diálogo para a justiça e a paz. Não se pode pedir perdão a Deus se não perdoarmos. Temos dificuldade em perdoar. Há mesmo pessoas que são incapazes de perdoar a si mesmos os pecados e erros cometidos no passado e que continuam a atormentá-los. Porque humanamente, o perdão é algo muito difícil, quase impossível. Mas não podemos ficar no sentimento “não consigo perdoar, porque não consigo esquecer”. O esquecimento é função da memória, enquanto o perdão está no coração. E Jesus pede-nos que perdoemos. Se nos esforçamos por perdoar, a ofensa acaba aliviando a sua memória. Mas se estou constantemente a lembrar-me da ofensa, será quase impossível perdoar. Para o cristão, perdoar não é uma opção, é uma necessidade, porque Deus só nos perdoa com a medida que perdoarmos àqueles que nos ofendem. Perdoar sete vezes é perdoar sempre. Perdoar setenta vezes sete é perdoar de uma forma ilimitada. |