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Domingo VI do Tempo Comum | Ano A | 15 fevereiro

OS DOIS SERÃO UMA SÓ CARNE – O PLANO DE JESUS PARA O CASAL 

Neste domingo, escutamos um longo texto evangélico, extraído do Sermão da Montanha. Para o compreender, temos de ter em conta o que São Paulo diz na segunda leitura: “Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos, mas de uma sabedoria que não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que vão ser destruídos. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória”. Esta sabedoria, anunciada por Paulo, e que é o Evangelho de Cristo, é a única capaz de nos levar a Deus e de nos fazer alcançar a condição de filhos de Deus, herdeiros da sua glória. Mas não é a que governa este mundo. Uma parte do Sermão da Montanha é ocupada por seis antíteses ou contradições entre o que o povo antigo pensava e o que Jesus veio ensinar. Nelas, aparecem as seguintes expressões: “Ouvistes que foi dito aos antigos…Eu, porém, digo-vos”. É assim que Jesus esclarece que não veio abolir o Antigo Testamento, mas levá-lo à sua realização e plenitude. E seis temas são colocados diante de nós: o assassínio, o adultério, o divórcio, os juramentos, a lei do talão e o amor ao próximo. No Evangelho deste domingo, ouvimos as primeiras quatro antíteses e só nos vamos debruçar sobre a terceira, a que nos fala do divórcio, porque acho importante que falemos sobre isso. Para um casal que se uniu apaixonadamente numa vida a dois, a morte do amor é sempre um acontecimento dramático, especialmente quando é acompanhado por pequenas e grandes misérias, por problemas ou discussões entre o casal, por crises internas ou tensões que se descarregam nos filhos ou em outros familiares. É uma experiência tão forte e negativa que até danifica os nossos sentimentos religiosos. Para que a vida conjugal seja bem-sucedida, é necessária uma doação total entre um e o outro, como recorda Jesus, em certa ocasião: “o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois um só? Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem” (Mt 19,5-6). A legislação que encontramos no Antigo Testamento tem a ver com a prática das sociedades do Antigo Oriente, que eram favoráveis ao divórcio. Como exemplo, no livro do Deuteronómio, encontramos uma lei que diz: “Quando um homem tomar uma mulher e a desposar, se depois ela deixar de lhe agradar, por ter descoberto nela algo de vergonhoso, escrever-lhe-á um documento de divórcio, entregar-lho-á em mão e despedi-la-á de sua casa” (Dt 24,1). Mas o que pode ser “algo vergonhoso”? A interpretação judaica oscilava entre uma posição rígida que admitia repúdio apenas em caso de adultério ou má conduta, e uma mais flexível, que permitia ao homem divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo: cozinhar mal, ter encontrado outra mulher mais atraente, ou por se ter aborrecido por ver o mesmo rosto. E a formalidade era muito simples. O profeta Oseias diz-nos que bastava negar a fórmula do casamento perante testemunhas e dizer: “Ela já não é minha mulher e eu já não sou o seu marido”. Depois veio a elaboração de um documento de repúdio no qual foi incluída a frase: “Odeio a minha mulher”. Agora, olhemos para a opinião de Jesus. Ele propõe uma nova forma de ver e de viver a relação do casal, baseada numa doação total um ao outro e, portanto, construída sobre um projeto de amor indissolúvel, opondo-se à antiga prática. Jesus encontrava as raízes do plano divino no que ele via como o sinal de um amor que desafia toda a divisão e a morte: “Os dois serão uma só carne”, retirado do Génesis. A isto, Mateus acrescenta uma exceção: “salvo em caso de união ilegítima”. Para Jesus, o amor conjugal é algo tão importante que não pode ser violado nem quebrado. O cristão deve vivê-lo plenamente e com toda a radicalidade e deve abordá-lo com muito respeito, e não como alguém que embarca irresponsavelmente numa aventura, como alguém que vai apostar na lotaria ou na raspadinha, ou iniciar uma experiência transitória e superficial. A nossa sociedade precisa, hoje mais do que nunca, de homens e mulheres que saibam defender o projeto de um amor indissolúvel, mas que ao mesmo tempo compreendam e ajudem aqueles que são incapazes de o viver no contexto difícil atual. O “Antigo Regime”, de obediência cega e de submissão, acabou. Os cristãos têm um modelo de conduta em Jesus, Aquele que defendeu o casamento como ninguém, mas que, ao mesmo tempo, não quis atirar pedras a ninguém. Rezemos a Deus pelos casais, rezemos para que possam existir famílias sagradas.

Sugestão de Cânticos
Entrada: O Senhor é minha luz e salvação, F. Santos, NCT 224; Sede a rocha do meu refúgio (M. Simões) – CEC II 33; Rochedo do meu abrigo (Az. Oliveira) – CEC II 32; Apresentação dos Dons: Em redor do teu altar (M. Carneiro) – NCT 246; Corpo e Alma, Senhor (M. Faria) – NCT 245; Comunhão: Deus enviou ao mundo, M. Luís, NCT 76; Eu sou o Pão da vida (B. Sousa) – CPD 185; Dou-vos um mandamento novo (F. Silva) – IC 430; Final: Louvado seja o meu Senhor, J. Santos, NCT 283; Escuta Israel (C. Silva) – CEC II 136; Sede o meu refúgio (M. Luís) – CPD 442
Leitura Espiritual

«Eu, porém, digo-vos»: a antiga Lei é levada à perfeição por aquele que dá a nova Lei 

A Lei dada a Moisés é uma recolha de ensinamentos variados e imperativos, uma coleção útil a todos acerca do que é bom fazer nesta vida e um reflexo místico dos costumes da vida celeste: um archote e uma lamparina, um fogo e uma luz, réplicas dos luzeiros do alto. A Lei de Moisés era o itinerário da piedade, a regra dos bons costumes, o travão do primeiro pecado, o esboço da verdade futura (Col 2,17). A Lei de Moisés era um mestre para a piedade e um guia para a justiça, uma luz para os cegos e uma prova para os insensatos, um pedagogo para as crianças e uma amarra para os imprudentes, uma rédea para as cabeças duras e um jugo poderoso para os impacientes. A Lei de Moisés era o mensageiro de Cristo, o precursor de Jesus, o arauto e o profeta do grande Rei, uma escola de sabedoria, uma preparação necessária e um ensinamento universal, uma doutrina oportuna e um mistério temporário. A Lei de Moisés era um resumo simbólico e enigmático da graça futura, anunciando em imagens a perfeição da verdade que havia de vir. Pelos sacrifícios, anunciava a Vítima; pelo sangue, o Sangue; pelo cordeiro, o Cordeiro; pela pomba, a Pomba; pelo altar, o Sumo Sacerdote; pelo Templo, a permanência da divindade; pelo fogo do altar, a plena «Luz do mundo» (Jo 8,12) que desce dos céus. (Homilia grega do século IV, inspirada pelo Tratado sobre a Páscoa, de Sto. Hipólito de Roma (? – cerca de 235), presbítero e mártir)

Redação: Pe. Jorge Seixas liturgia@diocesedeviseu.pt
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