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Domingo XXVI do Tempo Comum - Ano A - 27 de setembro

NINGUÉM SE DEFINE SOMENTE PELO QUE DIZ, MAS PELO QUE VIVE 

Neste domingo, é proclamada uma parábola que repete a mesma imagem do domingo passado: Deus envia os seus filhos, os homens e as mulheres, para a vinha. Mas, nesta parábola, o primeiro filho diz não, mas depois arrepende-se e vai; o segundo diz sim, mas acaba por não ir. Estas atitudes dos filhos revelam o conflito entre o que é dito e o que é feito. Jesus não termina a parábola e pergunta aos “príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo” qual dos dois cumpre a vontade do seu pai e eles respondem: “o primeiro”, aquele que diz não, mas depois arrepende-se e vai. Tudo parte da vontade de Deus, o Pai, que envia os homens para a vinha. O que significa ir para a vinha? Deus envia os homens e as mulheres para um novo modo de viver, para uma vida plena segundo a vontade do Pai, uma vida de amor, justiça, paz, perdão, confiança. Assim, no céu há grande alegria quando uma pessoa encontra a vida de acordo com a vontade do Pai. “Qual dos dois fez a vontade ao pai? Eles responderam-Lhe: O primeiro”. Ou seja, diante de Deus a pessoa não se define pelo que diz nem pelo que nega, mas pelo que vive. A verdadeira resposta não é o que dizem os lábios, mas aquela que a vida transmite, porque a vontade do pai não é que os filhos digam alguma coisa, mas que vivam em paz, perdão, confiança. Nesta simples parábola, Jesus refere-se ao conflito universal entre a palavra e a vida. Dizemos e defendemos muitas coisas com as nossas palavras, sobretudo a paz, a justiça, a fé, a pertença a um grupo, a Igreja... Mas, o que conta agora é o modo de vida de cada um, de cada grupo, na busca da justiça, da paz, na pertença à Igreja. Através da linguagem, defendemos importantes valores, mas na vida, nas ações quotidianas, por vezes, não cultivamos esses valores. Há sempre uma tensão entre a vida real e a linguagem. Ter consciência disso e saber vivê-lo é sinal de maturidade. Mas, há um pormenor a salientar nesta parábola: “João Batista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele”. Jesus utiliza, por três vezes, o verbo “acreditar”. E fala de alguns – publicanos e prostitutas – que oficialmente dizem “não”, mas que realmente abriram o coração a João e mudaram de vida. Isto é muito importante. A vida real de cada pessoa, de cada grupo ou comunidade, que se manifesta no seu modo de vida, não é apenas a sua verdade, que Deus conhece e valoriza, mas é o lugar da sua fé, a verdadeira fé do coração. É isto que Jesus recorda aos fariseus e aos doutores da lei: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7, 6). O texto da Carta de São Paulo aos Filipenses é, provavelmente, uma das mais belas páginas da Bíblia. Recorda-nos até que ponto Jesus se deixou humilhar voluntariamente para nos resgatar a todos. Mas, neste domingo, gostaria de salientar a parte que nos fala de considerar os outros superiores e o propósito de procurar os interesses dos outros antes dos nossos. Estas duas ideias são o fundamento cristão da humildade e da delicadeza. São Paulo convida-nos a sermos humildes e delicados, manifestando, assim, a nossa fé. Deus pede-nos que dêmos fruto, que a nossa vida decorra segundo a sua vontade a nosso respeito. Na parábola, o primeiro filho parece rude, dizendo não ao pai, e o segundo parece ser o mais educado. O segundo filho é falso, o seu comportamento não é o mais correto por dizer o que o pai queria ouvir. A sua mentira torna a sua culpa ainda mais grave. Mas o primeiro, aquele que disse não, fez o que o pai esperava dele, apesar de manifestar resistência. Somos convidados a sermos humildes e delicados, tratando os outros segundo a vontade de Deus, mesmo que não queiramos, através de pequenos gestos: a ceder o lugar a alguém mais frágil, a cumprimentar com um sorriso, a ouvir alguém que há muito sabemos que precisa de partilhar algo. Todos sabemos por onde começar. Sejamos mensageiros de Deus, através da nossa delicadeza, sinceridade, respeito e proximidade a todos os que nos rodeiam.

SUGESTÃO DE CÂNTICOS

Entrada: Deus fala de paz, F. Santos, NCT 216; Nós vamos até Vós, A. Mendes, NCT 223, Tudo quanto nos fizestes (C. Silva) – CEC II 123; Sede a rocha (M. Simões) – CEC II 33; Apresentação dos Dons: Na hóstia sobre a patena (C. Silva) – CT 67; O Senhor Jesus humilhou-Se (F. Santos) LHC 274; Comunhão: A minha alma tem sede, F. Silva, NCT 255; Como é admirável, F. Santos, NCT 257; Se vos amardes uns aos outros, F. Silva, NCT 274; Somos convidados para a Ceia do Senhor (F. Silva) – CT 158; Ao nome de Jesus (M. Simões) – NRMS 116,4; Final: Bem-aventurados (M. Luís) – CEC II 28; Cantarei eternamente (C. Silva) – CT 380.

LEITURA ESPIRITUAL

«Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus» 

As portas estão abertas a todo aquele que, em sinceridade e de todo o coração, se voltar para Deus, e é com alegria que o Pai recebe um filho verdadeiramente arrependido. Qual é o sinal do arrependimento verdadeiro? Não voltar a cair em velhos erros e arrancar do coração, pela raiz, os pecados que nos punham em perigo de morte; quando estes estiverem apagados, Deus virá habitar-nos. Porque, como diz a Escritura, um pecador que se converte e se arrepende dará ao Pai e aos anjos do céu uma imensa e incomparável alegria (Lc 15,10). Foi por isso que o Senhor disse: «Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios» (Os 6, 6; Mt 9,13); «Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim na sua conversão» (Ez 33,11); «Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã» (Is 1, 18). Só Deus, de facto, pode remir os pecados e não imputar erros, ainda que o Senhor Jesus nos exorte a perdoar, em cada dia, aos irmãos que se arrependem. E se nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos outros (Mt 7,11), quanto não será capaz de dar «o Pai das misericórdias» (2Cor 1,3)? O Pai de toda a consolação, que é bom, cheio de compaixão, de misericórdia e de paciência por natureza, espera os que se convertem. E a verdadeira conversão supõe que deixemos de pecar e que não olhemos mais para trás. Lamentemos amargamente, pois, os erros cometidos e peçamos ao Pai que os esqueça. Ele pode, na sua misericórdia, desfazer o que foi feito e, com o orvalho do Espírito, apagar as nossas faltas passadas. (São Clemente de Alexandria (150-c. 215), teólogo, Homilia «Que rico será salvo?», 39-40)

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Redação: Padre Jorge Seixas e Padre Carlos Cunha

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