A BRISA DE DEUS QUE TRAZ PAZ E ALUMIA A VIDA COM A SUA PRESENÇA
A Tradição da Igreja sempre entendeu o texto do Evangelho deste domingo como um símbolo da Igreja no meio das tempestades do mundo e o apelo de Jesus à confiança e à fidelidade. Recordemos as graves dificuldades que a Igreja está a enfrentar no tempo presente. Desafios que vêm de fora, de um mundo violento, materialista, egocêntrico, fechado aos valores do Espírito; e também dificuldades causadas pelos próprios filhos, muitas vezes marcadas pela mesma violência, materialismo e egoísmo do mundo que nos rodeia. Vemos, assim, que o barco açoitado pelas ondas não é uma mera imagem, mas vai à raiz dos sérios desafios que a Igreja deve enfrentar hoje, devido aos ataques que vêm de fora e às infidelidades que estão dentro. O Evangelho apresenta a figura de Jesus a dominar a tempestade e a exortar à confiança e à fé: “Não tenhais medo”. Recordemos o que Ele nos disse: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”. A sua presença é a sua providência sobre a sua comunidade: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar” (Mt 24, 35). As palavras de Jesus apresentam ainda outro pormenor para entender o medo dos discípulos: o medo produzido pelas próprias palavras e pelo Espírito de Jesus. O Evangelho salienta várias vezes que os discípulos “não entendiam esta linguagem e tinham receio de o interrogar” (Mc 9, 32). O evangelista João narra que muitos discípulos de Jesus o abandonaram por causa do seu modo duro de falar (6, 60). Então Jesus perguntou aos Doze: “Também vós quereis ir embora?” (6, 67), e Pedro resolve a situação com uma confiança excessiva (cf. 6, 68). A linguagem de Jesus é assustadora, sobretudo quando anuncia a sua morte. O próprio Pedro rejeita-o e Jesus repreende-o muito duramente: “Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8,33). “Sou eu, não temais”. Não tenhais medo de mim. É o apelo à confiança diante do imenso e radical amor a Deus. A narração da tempestade acalmada termina com a atitude de Pedro, a sua dúvida e a repreensão de Jesus. Já não fala de medo, mas de dúvida: “Homem de pouca fé, porque duvidaste”? A fé enfrenta sempre o perigo e o desafio da dúvida. Dúvida de quê? A dúvida de uma realidade imaterial e inexplicável que propõe um sentido para a vida e exige uma entrega total. Pedro duvida em fazer a experiência do perdão e do amor; duvida que um dia um mundo justo, pacífico e fraterno possa ser verdadeiro; duvida que Deus seja suficientemente forte ou providente para dar força à nossa fraqueza. Pedro a afundar-se expressa a extrema complexidade da fé. Por um lado, é a sensação de que tudo está a afundar-se debaixo dos seus pés; por outro, a firmeza da presença do Senhor Jesus que estende a mão e o salva. Através de “uma ligeira brisa” o Senhor manifestou-se em Horeb. Neste domingo, somos convidados a interrogar-nos, à luz das leituras bíblicas, onde procuramos Deus. Com tanto barulho à nossa volta (o barulho da televisão, rádio, internet, críticas...), essa missão de encontrar Deus pode tornar-se uma missão impossível. Somos convidados a acalmar por dentro, a deixar para trás a correria, os ruídos, as manchetes dramáticas. O Senhor continua ao nosso lado, continua a implorar pela nossa amizade e pelo nosso amor. Neste domingo, é feita a todos a proposta de uma cura do ruído e da pressa. Com toda a simplicidade, procurar o Senhor nas coisas do dia a dia. Não é tão difícil assim. A leve brisa de que fala o profeta é uma boa pista para iniciar esta busca. Deus é delicado, e quando Ele se torna presente é impossível não reconhecê-Lo. Procuremos Deus na criação. Também é fácil encontrá-lo no cuidado dos filhos ou dos netos, com a família ou os amigos. Na rotina da vida podemos encontrar aquela brisa de Deus que traz paz ao coração e ilumina as nossas vidas com a sua mera presença. |