A ALEGRIA DA PÁSCOA NASCE DA DOR DA PAIXÃO DO SENHOR
O Tempo da Quaresma tem-nos guiado no caminho da preparação para os dias centrais do ano litúrgico que constituem a Semana Santa, cujo pórtico é o Domingo de Ramos com a Missa da Paixão do Senhor. “Hossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor”! Esta antífona litúrgica acompanha a procissão com os ramos. Mas “o Senhor devia ser acolhido com os frutos de todo o caminho quaresmal, com flores de virtude e palmas de vitória” sobre o pecado, dizia Guilherme de Auxerre. Imitamos o que aconteceu há mais de dois mil anos: a multidão reúne-se à volta de Jesus e louva a Deus, em voz alta, quando Ele faz a sua entrada em Jerusalém montado num jumentinho, tal como o profeta tinha anunciado. Comemorar esta entrada do Senhor em Jerusalém é mais do que preparar-se para a Páscoa: é vivê-la! Imitar “as crianças hebreias” daquele dia é aceitar o convite a sair, a atravessar as nossas cidades com passos ritmados por cantos de alegria e capazes de meditar “os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Jesus sobe da Galileia a Jerusalém para celebrar a Páscoa judaica, que será a sua própria Páscoa. Os discípulos sobem com ele. Estão também unidos aqueles que em Betânia contemplaram o milagre da ressurreição de Lázaro (Evangelho do domingo passado), assim como muitos outros que se foram aproximando ao longo do caminho. A celebração da Semana Santa começa com o “Hossana” de hoje e atinge o seu auge com o “Crucifica-O!” na Sexta-feira Santa. São Paulo recorda-nos que Jesus “assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens” (Fil 2, 7) para nos obter a graça da filiação divina. Aqui encontramos a verdadeira fonte da qual brota a paz e a alegria para cada um de nós: é a alegria da Páscoa que nasce da dor da paixão do Senhor. A cruz é o sinal do Redentor, que morreu por nós. Na Cruz, Jesus, “redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação” (prefácio da Missa). O Senhor tornou-se obediente até a morte e morte na cruz. A narrativa da paixão, este ano segundo o evangelista Mateus, põe em evidência a fidelidade de Jesus, diante da infidelidade daqueles que o levam à crucificação. Na hora mais crucial, quando todos o abandonam, incluindo Pedro e os outros apóstolos, Jesus permanece fiel, disposto a derramar o seu sangue para cumprir a missão que lhe foi confiada pelo Pai. Perto dele, Maria sofre silenciosamente. A narrativa dialogada da paixão convida-nos a uma meditação silenciosa sobre o que Jesus viveu e sofreu na sua própria solidão. Estamos sintonizados com Aquele que experimenta sentimentos tão profundos e humanos como a tristeza e o medo. Jesus faz sua a capacidade de viver a solidão e o sofrimento humanos: “A minha alma está numa tristeza de morte”. São palavras que exprimem o grito abafado e silencioso das crianças inocentes, das mulheres maltratadas, dos marginalizados, dos idosos que são deixados sozinhos, dos que fogem da guerra e das ameaças, dos cristãos perseguidos... A paixão de Cristo une-se com a paixão de tantas pessoas ao longo da história até hoje, no nosso mundo atormentado. E, diante de tal desamparo, depois de ouvir as palavras “E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou”, só podemos ficar em silêncio diante do crucificado. Mas temos a firme esperança de que nem tudo acaba aqui. Alimentados pela Eucaristia, esperamos obter aquilo em que acreditamos, através da morte de Jesus Cristo, e que, pela sua ressurreição, cheguemos felizes “às alegrias do reino que esperamos” (Oração Depois da Comunhão). Que os nossos olhos continuem fixos em Cristo crucificado, elevando o nosso coração a Deus com uma atitude de oração silenciosa, rezando por toda a humanidade e configurando-nos com os mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor. |