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Domingo II da Quaresma | Ano A | 01 de março

DO TABOR DE JESUS AOS TABORES DA NOSSA VIDA: COMO É BOM ESTAR AQUI 

Pode surpreender-nos o facto de, na Quaresma, um tempo que sempre associamos ao recolhimento e à austeridade, as leituras deste domingo nos apresentarem a história do chamamento de Abraão (“Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar”), ou o entusiasmo de São Paulo diante do esplendor da Boa Nova do Evangelho revelada por Jesus Cristo (“Esta graça, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho”). Mais ainda, a narrativa da transfiguração, que lemos no Evangelho, pode até confundir-nos: (“o seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: Senhor, como é bom estarmos aqui! Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”). Mas precisamente aqui reside um dos pontos fulcrais para compreender a Liturgia da Palavra neste domingo: a Quaresma faz-nos voltar à essência, ao primeiro encontro com o Senhor, às experiências de vida que marcaram a nossa caminhada de fé, aos momentos em que o Senhor, como aconteceu aos discípulos, se revelou a nós mais claramente e, assim, pudemos contemplar quão grande é o Senhor. Este é um tempo ideal para recordar e reviver todas estas experiências. Ao fazê-lo, reanimamos a fé, abraçamos a conversão e regressamos ao Senhor, Aquele que nos seduziu. Pode ajudar-nos a compreender tudo isto o testemunho de uma pessoa que afirmava algo que nunca deixava ninguém indiferente: dizia que tinha nascido duas vezes! Esta surpreendente afirmação todos a tomavam como uma forma de falar sobre um acidente ou uma circunstância trágica, com a qual esteve prestes a perder a vida. Mas ele não dizia isto por nenhuma destas coisas. O seu duplo nascimento tinha outro significado: o primeiro foi quando nasceu há mais de oitenta anos, o segundo foi quando tinha trinta e poucos anos, quando teve consciência de que a fé tinha nascido no seu coração. Recordava-se muito bem daquele momento, ocorrido há mais de cinquenta anos. Dizia que tinha sido convidado, num fim de semana, a participar num grupo da sua paróquia que, nessa altura, organizava muitos retiros para jovens e adultos. Aquela experiência foi para ele um antes e um depois. Um acontecimento que marcou a sua vida para sempre e que, desde esse momento, o seu segundo nascimento, sempre tentou colocar Jesus Cristo no primeiro lugar da sua vida e das suas prioridades, ou seja, quis ser fiel a Ele. A partir daquele momento, Jesus tem sido a sua grande força, o seu grande amigo, a sua luz, o seu Senhor. Podemos dizer que esta pessoa viveu um momento de transfiguração, em que o Senhor também se mostrou claramente, como aos três discípulos escolhidos. No entanto, sabemos, por experiência própria, que as circunstâncias do nosso dia-a-dia, a nossa fragilidade, as tentações e as alternativas que sempre nos são propostas, podem extinguir aquela fé que o Senhor despertou em momentos específicos graças aos diferentes “tabores” que cada um de nós viveu. É por isso que o tempo quaresmal é uma grande oportunidade para recordarmos aqueles momentos em que o Senhor também nos disse: “Deixa a tua terra e vai para onde te indicar”, “Este é o meu Filho muito amado, escuta-O”; aqueles momentos em que se nos revelou de forma tão esplendorosa e tivemos também a vontade de exclamar: “Senhor, como é bom estarmos aqui”! Nestes dias recordemos e revivemos os nossos primórdios na fé, as primeiras orações, os sacramentos, algum retiro, alguma vivência da nossa infância ou juventude, uma peregrinação, uma experiência de vida que nos fez repensar tudo, um momento de oração que nos encheu de paz e alegria interior, o momento do chamamento ou da descoberta da nossa vocação. Recordemos tudo isto e rezemos o que nos diz o salmista: “Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor”.

Sugestão de Cânticos
Entrada: Senhor, ouvi a minha súplica, F. Santos, NCT 93; Vem, Salvador do mundo, F. Santos, NCT 94; Eu venho, Senhor (A. Cartageno) – CEC II 77; Escutai, Senhor, a voz do meu clamor (C. Silva) – OC 95; Ofertório: No tempo favorável, M. Faria, NCT 91; Senhor, Tu és a Luz (A. Oliveira) – CT 218; O Senhor transferiu-nos (M. Luís) – CAC 154; Comunhão: Ditosos os que te louvam, F. Santos, NCT 109; Jesus tomou consigo (C. Silva) – CEC I 95; Ditosos os que Te louvam sempre (F. Santos) – NCT 109; Fim: Que importa se é tão longe (M. Luís) – CT 443; Ouviu-se uma voz vinda do Céu (A. Mendes) – CEC I 93.
Leitura Espiritual

Contemplar o rosto do Amor celeste! 

Deus, Criador do Universo, moldou o homem à sua imagem e semelhança. E amou-o com um amor tão grande que lhe reservou o lugar do qual tinha sido expulso o anjo caído, atribuindo-lhe toda a glória e toda a honra que este anjo havia perdido ao mesmo tempo que perdera a salvação. É isso que te mostra o rosto que contemplas. Essa figura simboliza o amor do Pai celeste. Essa figura é amor: no seio da energia da divindade perene, no mistério dos seus dons, ela é a maravilha de uma beleza insigne. Se tem aparência humana, é porque o Filho de Deus assumiu carne para arrancar o homem à perdição, graças ao amor. É por isso que este rosto possui tal beleza e tal claridade: porque é o rosto da beleza eterna, do amor eterno. É mais fácil contemplares o Sol que contemplares este rosto. Com efeito, a profusão do amor irradia, cintila com um brilho tão sublime, tão fulgurante, que ultrapassa, de forma inconcebível para os nossos sentidos, todos os atos da compreensão humana que fixam na alma o conhecimento dos assuntos mais diversos. (Santa Hildegard de Bingen (1098-1179), abadessa beneditina e doutora da Igreja, O livro das obras divinas, cap. 6)

Redação: Pe. Jorge Seixas liturgia@diocesedeviseu.pt
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