SOMOS CHAMADOS À VIVÊNCIA DA FÉ
O texto do evangelho deste domingo provoca uma certa estranheza. Para nós, é difícil compreender uma atitude tão dura de Jesus para com uma mulher pagã. Tem, como fundamento, uma questão delicada e séria: a postura de Jesus e da primeira comunidade cristã para com os pagãos. A primeira leitura deste domingo pode ajudar-nos. O povo de Israel recebe a Palavra e os dons de Deus no seu templo. Mas os profetas já tinham afirmado: não basta pertencer a um povo oficializado como Povo de Deus. É necessário que os seus membros vivam fiéis à Palavra de Deus e ao culto que celebram. E a primeira leitura deste domingo dá ainda mais um passo em frente, valorizando a vida daqueles que não pertencem ao Povo de Deus. Se a sua conduta for justa, eles podem entrar no templo e participar no culto. Este foi o passo decisivo. Todos os povos e todas as pessoas são chamadas à experiência interior da fé. É isto que o texto evangélico quer salientar. Depois de um percurso doloroso e admirável daquela mulher, surge a expressão de Jesus, que é o centro do texto deste domingo: “Mulher, é grande a tua fé”. Várias vezes, o Evangelho destaca reações semelhantes de Jesus: a que foi dirigida à mulher cananeia é, provavelmente, o exemplo mais forte disso. No diálogo com o centurião, “Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé”! (Mt 8, 10); porém, em Nazaré, “não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente”. Não é difícil encontrar este aspeto na parábola do Bom Samaritano: passam os membros do Povo de Deus que trabalhavam no templo; o único que tem compaixão é o pagão (Lc 10, 25-37). Depois de ressuscitar, Jesus diz: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). A primeira comunidade cristã fez, pouco a pouco, este processo de integração, o que não foi fácil. É o caminho para valorizar cada pessoa, a sua fé, o seu amor, para além das instituições e das ordens externas. O Apocalipse faz referência a esta integração, utilizando a seguinte expressão: “homens de todas as tribos, línguas, povos e nações” (Ap 5, 9; 7, 9; 11, 9; 13, 7). E nós? Estamos habituados a falar de culturas. Pensamos na nossa, que nos envolve na forma como pensamos e procedemos na vida. Há uma forte tensão entre a clareza de cada cultura e a postura individual, a fé e o amor, de cada pessoa e de cada grupo dentro das culturas. O apóstolo Paulo elaborou uma ideia surpreendente que lemos na segunda leitura deste domingo. Deus permitiu a decadência das culturas, judaicas e pagãs, para se compadecer de todos e, assim, conduzir o maior número possível de pessoas a uma vida nova e salva. Também nós somos chamados a viver de acordo com o Evangelho e a salvar a nossa cultura com a luz do Evangelho. O encontro de Jesus com a mulher cananeia faz parte deste processo de abertura da mensagem salvífica a toda a humanidade. Todos são chamados por Deus à vida de esperança e de amor. Cada um terá de responder através das suas palavras e das suas obras para, depois, participar na Páscoa de Jesus. O Concílio Vaticano II abordou o tema com uma visão radical e relembrou uma visão teológica enraizada no mistério de Cristo, Salvador de toda a humanidade. “Com efeito, já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido”(GS 22). |