NINGUÉM SE DEFINE SOMENTE PELO QUE DIZ, MAS PELO QUE VIVE
Neste domingo, é proclamada uma parábola que repete a mesma imagem do domingo passado: Deus envia os seus filhos, os homens e as mulheres, para a vinha. Mas, nesta parábola, o primeiro filho diz não, mas depois arrepende-se e vai; o segundo diz sim, mas acaba por não ir. Estas atitudes dos filhos revelam o conflito entre o que é dito e o que é feito. Jesus não termina a parábola e pergunta aos “príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo” qual dos dois cumpre a vontade do seu pai e eles respondem: “o primeiro”, aquele que diz não, mas depois arrepende-se e vai. Tudo parte da vontade de Deus, o Pai, que envia os homens para a vinha. O que significa ir para a vinha? Deus envia os homens e as mulheres para um novo modo de viver, para uma vida plena segundo a vontade do Pai, uma vida de amor, justiça, paz, perdão, confiança. Assim, no céu há grande alegria quando uma pessoa encontra a vida de acordo com a vontade do Pai. “Qual dos dois fez a vontade ao pai? Eles responderam-Lhe: O primeiro”. Ou seja, diante de Deus a pessoa não se define pelo que diz nem pelo que nega, mas pelo que vive. A verdadeira resposta não é o que dizem os lábios, mas aquela que a vida transmite, porque a vontade do pai não é que os filhos digam alguma coisa, mas que vivam em paz, perdão, confiança. Nesta simples parábola, Jesus refere-se ao conflito universal entre a palavra e a vida. Dizemos e defendemos muitas coisas com as nossas palavras, sobretudo a paz, a justiça, a fé, a pertença a um grupo, a Igreja... Mas, o que conta agora é o modo de vida de cada um, de cada grupo, na busca da justiça, da paz, na pertença à Igreja. Através da linguagem, defendemos importantes valores, mas na vida, nas ações quotidianas, por vezes, não cultivamos esses valores. Há sempre uma tensão entre a vida real e a linguagem. Ter consciência disso e saber vivê-lo é sinal de maturidade. Mas, há um pormenor a salientar nesta parábola: “João Batista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele”. Jesus utiliza, por três vezes, o verbo “acreditar”. E fala de alguns – publicanos e prostitutas – que oficialmente dizem “não”, mas que realmente abriram o coração a João e mudaram de vida. Isto é muito importante. A vida real de cada pessoa, de cada grupo ou comunidade, que se manifesta no seu modo de vida, não é apenas a sua verdade, que Deus conhece e valoriza, mas é o lugar da sua fé, a verdadeira fé do coração. É isto que Jesus recorda aos fariseus e aos doutores da lei: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7, 6). O texto da Carta de São Paulo aos Filipenses é, provavelmente, uma das mais belas páginas da Bíblia. Recorda-nos até que ponto Jesus se deixou humilhar voluntariamente para nos resgatar a todos. Mas, neste domingo, gostaria de salientar a parte que nos fala de considerar os outros superiores e o propósito de procurar os interesses dos outros antes dos nossos. Estas duas ideias são o fundamento cristão da humildade e da delicadeza. São Paulo convida-nos a sermos humildes e delicados, manifestando, assim, a nossa fé. Deus pede-nos que dêmos fruto, que a nossa vida decorra segundo a sua vontade a nosso respeito. Na parábola, o primeiro filho parece rude, dizendo não ao pai, e o segundo parece ser o mais educado. O segundo filho é falso, o seu comportamento não é o mais correto por dizer o que o pai queria ouvir. A sua mentira torna a sua culpa ainda mais grave. Mas o primeiro, aquele que disse não, fez o que o pai esperava dele, apesar de manifestar resistência. Somos convidados a sermos humildes e delicados, tratando os outros segundo a vontade de Deus, mesmo que não queiramos, através de pequenos gestos: a ceder o lugar a alguém mais frágil, a cumprimentar com um sorriso, a ouvir alguém que há muito sabemos que precisa de partilhar algo. Todos sabemos por onde começar. Sejamos mensageiros de Deus, através da nossa delicadeza, sinceridade, respeito e proximidade a todos os que nos rodeiam. |